Capítulo 1: A Terra Antes do Nome
Episódio 4: Um Dia no Sangue da Lusitânia
(Ano: 147 a.C.)
[Plano inicial: nevoeiro espesso cobre a Serra da Estrela. As folhas dançam ao sabor do vento. A câmara desce lentamente até um acampamento lusitano ao amanhecer. O fogo já se apagou. O chão ainda está frio. Homens e mulheres acordam devagar, cada um com um papel num dia que se adivinha longo.]
“Era mais um dia entre tantos na vida de um povo que se recusava a morrer. O Império apertava. Mas a montanha ainda pertencia aos lobos.”
Cena 1: Amanhecer no castro
Local: Castro de Hermínio, entre a serra e o vale.
Personagens principais:
– Aelus, guerreiro de 28 anos, leal a Viriato.
– Larta, sua esposa, curandeira.
– Brenno, filho de 9 anos.
– Viriato, ainda ausente (reaparecerá mais tarde).
[Aelus sai da cabana. O chão está húmido. Veste a capa de lã. À volta, o castro acorda. Um velho acende as brasas. Uma jovem transporta água em talhas de barro. Ouvem-se porcos a grunhir e cães a ladrar ao longe.]
– “Hoje patrulhas romanas foram vistas no rio,” diz um dos guardas, com olhar tenso.
– “Eles não param,” responde Aelus. “Mas também nós não.”
Larta prepara uma infusão para os mais velhos. Ensina a Brenno como moer ervas e limpar feridas. O menino ouve, mas os olhos brilham com outra coisa: quer ver o pai em batalha.
– “Hoje vais ficar comigo,” diz ela.
– “Mas eu quero ver o pai ser como Viriato.”
– “O pai sobrevive. Viriato luta. É isso que deves aprender primeiro.”
Cena 2: Patrulha de reconhecimento
Hora: Meio da manhã.
Local: Desfiladeiro próximo do rio Zêzere.
Aelus e outros cinco guerreiros caminham em silêncio. Sabem que os romanos aproximam-se. Observam rastos: pegadas de botas pesadas, marcas de carroça. Um corvo paira sobre eles.
[A vegetação é densa. Ouvem-se ramos partir. Um silvo: é um aviso. Aelus ergue o punho — todos param.]
– “Dois legionários. Sozinhos.”
– “Batedores?”
– “Ou isco.”
Planeiam. Dois escondem-se nos arbustos. Aelus move-se pela esquerda. É rápido, silencioso, como se fosse parte da floresta.
[Quando os romanos passam, os lusitanos atacam em sincronia. Um é morto de imediato. O outro tenta fugir — é capturado. Sangue na pedra. Um grito no vento.]
– “Eles vêm pelo sul. Carros de suprimentos. Vinte, talvez trinta homens.”
– “Viriato precisa saber. Já.”
Cena 3: O regresso e o conselho de guerra
Hora: Início da tarde.
Local: Castro.
Viriato entra na aldeia, vindo do vale. A barba está molhada de orvalho e sangue. Traz a expressão de quem conhece demais a morte.
[O povo reúne-se. Ele não grita. Fala baixo, mas todos ouvem.]
– “Os romanos vêm. Não com força... mas com pressa. Pensam que nos cansaram.”
– “Vamos dar-lhes sede. E deixá-los beber o nosso fel.”
*[Mapa em pele estendido no chão. Desenhos a carvão indicam o desfiladeiro, o vale, o caminho por onde os romanos virão. Viriato traça um plano.]
– “Vamos fazer o que fazemos melhor: desaparecer... e depois cair como trovão.”
Cena 4: Preparação para a emboscada
Hora: Fim de tarde.
As mulheres escondem os mais velhos e as crianças nas cavernas. Os homens limpam armas, afiam lanças. Aelus beija Larta na testa.
– “Se eu cair… Ensina o Brenno a sobreviver.”
– “Não. Ensina-o a resistir.”
Cena 5: O combate
Hora: Anoitecer.
Local: Desfiladeiro de pedra. Os romanos entram, confiantes. O som das rodas, os cascos, o tilintar das armaduras. Silêncio mortal à volta.**
[E de repente — o inferno.]
Rochas rolam. Flechas assobiam. Homens gritam. Uma armadilha perfeita. Os romanos tentam reagir, mas o terreno é apertado. Os lusitanos são como sombras. Lança, golpe, retirada.
Aelus luta lado a lado com Viriato. Vemos os olhos do líder. Focados. Imparáveis.
– “Eles acham que estamos a fugir. Mas esta terra é nossa. E nela, somos deuses.”
Ao fim de meia hora, o chão está vermelho. Os romanos fogem. Poucos sobrevivem.
Cena final: o silêncio após a batalha
Hora: Noite cerrada.
Aelus regressa ao castro. Está ferido. Larta corre até ele. Brenno olha-o como a um herói.
– “Hoje lutaste com Viriato?”
– “Não. Hoje… fui como ele.”
[A câmara sobe, mostra o castro iluminado por tochas. Ao longe, as montanhas dormem. A guerra continua. Mas esta noite… foi dos lobos.]
[FIM DO EPISÓDIO 4]
Um Dia no Sangue da Lusitânia A Batalha de 147 a.C.