domingo, 20 de julho de 2025

Fragmentos de Carne e Concreto 📖 Capítulo 1 – Episódio 12

 


📖 Capítulo 1 – Episódio 12: Fragmentos de Carne e Concreto

O silêncio absoluto que preenchia os corredores do prédio abandonado era quase tão perturbador quanto os sons que o precederam. Ricardo Veríssimo avançava com cautela, os passos medidos, os olhos atentos a cada detalhe daquele cenário de decadência e esquecimento. O chão sob seus pés rangia levemente, pedaços de concreto rachado e lascas de vidro estalavam como ossos velhos a cada passo.

As paredes ao seu redor, manchadas de mofo e sangue ressecado, pareciam contar histórias de agonia e loucura. Fragmentos de palavras grafitadas em tinta desbotada ou arranhadas diretamente no reboco criavam uma colagem sinistra de avisos e delírios:

"Eles estão nos observando."
"Não confie nos sussurros."
"O concreto lembra."

O cheiro metálico permanecia impregnado no ar, misturado ao odor de carne apodrecida, ferrugem e terra molhada que o acompanhava desde a floresta. Mesmo com a lanterna apagada, ele conseguia ver com clareza o suficiente — seus sentidos estavam em constante alerta, aprimorados desde o despertar violento na praia. Cada ruído sutil, cada sombra vacilante, ele captava como se fossem gritos em meio ao silêncio.

Mas havia algo mais.
Um sentimento opressivo que crescia a cada metro percorrido.
Uma presença que o prédio exalava — algo vivo e, ao mesmo tempo, morto.

Ricardo se deteve diante de uma porta entreaberta, a madeira carcomida e deformada pelo tempo, marcada por profundos arranhões que atravessavam sua superfície em direções aleatórias, como garras de uma criatura enlouquecida. Ele a empurrou com cuidado, o rangido ecoando pelo corredor como um gemido espectral.

Dentro, o ambiente era sufocante.

A sala parecia uma antiga enfermaria improvisada. Camas metálicas, enferrujadas e tortas, estavam dispostas de forma desordenada. Lençóis rasgados e sujos ainda pendiam sobre alguns colchões imundos. Manchas escuras cobriam as paredes e o piso — sangue coagulado, seco há muito tempo, formando padrões grotescos que a mente relutava em interpretar.

No canto da sala, algo se destacava sob a fraca luz que filtrava pelas janelas quebradas. Ricardo se aproximou, o estômago revirando-se ao constatar o que era.

Corpos. Ou o que restava deles.

Cadáveres mutilados, alguns claramente humanos, outros... distorcidos. Ossos expostos, órgãos revirados, rostos congelados em expressões de puro terror. Mas o pior não era a visão da carne rasgada ou das tripas expostas — era o fato de que alguns ainda se mexiam.

Espasmos involuntários.
Dedos que se contraíam.
Olhos esbranquiçados que, por breves instantes, pareciam focá-lo.

Ricardo recuou um passo, o coração disparando no peito. Não eram exatamente vivos, mas também não estavam totalmente mortos. Algo... residual permanecia ali. Talvez uma consequência direta do PRV-47, o maldito vírus que havia destruído o mundo conhecido.

E então, ele ouviu.

Não eram apenas os sussurros distantes do prédio. Era algo mais definido. Mais próximo.

Vozes.
Vozes humanas.

Ricardo se virou, o corpo inteiro em tensão. Os sons vinham de além da enfermaria, do corredor tortuoso à esquerda. Alguém estava ali. Ou melhor — alguém ainda estava ali. Seu instinto gritava cautela, mas a possibilidade de encontrar sobreviventes, ou ao menos respostas, era forte demais para ignorar.

Ele caminhou em direção ao som, cada passo ecoando como um tambor fúnebre.

O corredor parecia se estreitar à medida que avançava, como se o próprio prédio se contorcesse para impedi-lo. As paredes estavam cobertas de rachaduras profundas, como se algo tivesse explodido ali, ou como se as entranhas do edifício tivessem começado a colapsar. No teto, fios pendiam como serpentes negras, balançando levemente sob a brisa fria que soprava pelas frestas.

A voz ficou mais clara.

Era uma mulher. A respiração ofegante, as palavras murmuradas entrecortadas pelo pânico:

— Não... por favor... fica longe de mim...

Ricardo acelerou o passo, contornando a última curva. A cena diante dele fez o estômago se apertar.

No centro de uma sala aberta, iluminada apenas por um fraco foco de luz amarelada que pendia do teto, estava uma mulher. Os cabelos desgrenhados, o rosto pálido e marcado por hematomas. Ela estava encolhida contra a parede, tremendo.

E diante dela... algo se contorcia.

Uma criatura.
Humanóide, mas deformada.
A pele acinzentada e cheia de feridas abertas. Os ossos quase visíveis sob a carne deteriorada. A boca aberta em um sorriso grotesco e vazio, enquanto os olhos brancos fixavam a mulher como um predador prestes a atacar.

Ricardo não pensou.

O calor familiar subiu por seu peito, o mesmo calor primal que sentira quando esmagara a criatura na floresta. A raiva, o instinto, a força que pulsava dentro de si.

Ele avançou.

O monstro se virou a tempo de ver Ricardo aproximar-se, mas não teve tempo de reagir. O punho de Ricardo colidiu com o crânio deformado com uma força brutal, o estalo ecoando pela sala como um trovão abafado. O corpo da criatura foi lançado contra a parede, caindo inerte em meio a um líquido escuro e viscoso.

Ricardo se aproximou da mulher, que o olhava com uma mistura de pavor e esperança.

— Você está ferida? — perguntou ele, a voz rouca.

Ela hesitou por um segundo, depois balançou a cabeça negativamente, os olhos ainda arregalados.

Mas antes que pudessem dizer mais alguma coisa, um novo som invadiu o ambiente.

Passos.
Vários.
E sussurros.
Muitos sussurros.

Eles não estavam sozinhos.

E o pesadelo, ao que tudo indicava, estava apenas começando. 

Fragmentos de Carne e Concreto O Início do Pesadelo Parte 1


Fragmentos de Carne e Concreto O Início do Pesadelo Parte 2


Fragmentos de Carne e Concreto O Início do Pesadelo Parte 3


Fragmentos de Carne e Concreto O Início do Pesadelo Parte 4









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