Abaixo está o Primeiro Conto da série Crimes Reais: Portugal em Silêncio, baseado no caso verídico de Maria das Dores.
"O Mistério da Rua Artilharia Um"
Lisboa, 1992 – 2001
Chovia com a delicadeza dos dias em que algo terrível acontece. A cidade estava muda, e as janelas da Rua Artilharia Um pareciam fechar-se por instinto, como se adivinhassem o segredo que ali dentro apodrecia.
O corpo de Francisco Sousa Lobo, empresário, foi encontrado em avançado estado de decomposição no interior de um apartamento discreto. Ninguém bateu à porta durante semanas. O cheiro foi a denúncia. Mas, para os vizinhos, aquele homem era apenas um nome esquecido na caixa de correio.
O caso foi arquivado. Faltavam provas. Faltava alguém que quisesse saber.
Até que quase dez anos depois, uma denúncia anónima caiu sobre a mesa da PJ.
Um detalhe: a esposa do falecido, Maria das Dores, não parecia ter ficado viúva… pelo menos não emocionalmente. Levava uma vida confortável, investia em imóveis e mantinha-se envolta numa névoa de caridade e silêncio.
Quando uma tentativa de extorsão envolvendo um cofre esquecido em Espanha chegou às autoridades, as peças começaram a unir-se.
No julgamento, ela apareceu calma. O cabelo cuidadosamente preso, as mãos unidas como quem vai à missa.
Disseram que o crime foi passional. Disseram que foi premeditado. Ela disse que foi injustiça.
A justiça portuguesa condenou-a a 18 anos.
Mas Lisboa, essa, nunca soube toda a verdade.
E há quem diga que ainda hoje, no silêncio da Rua Artilharia Um, se ouve uma porta bater sozinha — como naquele dia.
O Mistério da Rua Artilharia Um Um Crime Real em Lisboa

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