domingo, 29 de junho de 2025

📖 Capítulo 1 – Episódio 9: Ecos do Concreto


📖 Capítulo 1 – Episódio 9: Ecos do Concreto

A escuridão envolvia Ricardo como um véu opressor. Não era apenas a ausência de luz, mas a presença sufocante de algo ancestral. As paredes úmidas ao seu redor pareciam respirar, e o sussurro que antes habitava a floresta agora sibilava entre as frestas do concreto, como uma entidade faminta que se infiltrava em cada centímetro daquele lugar.

Ricardo tateava no escuro. Sua lanterna, antes companheira, permanecia morta, fria em sua mão. Os sussurros haviam cessado, mas deixaram um eco pulsante em sua mente — um mantra abafado, repetido no silêncio como uma cicatriz sonora:
“Você não é o primeiro.”

Ele deslizou os dedos pelas paredes, sentindo sulcos irregulares — marcas de luta, de fuga ou de experimentos. A sensação era a mesma do laboratório nos fragmentos de suas memórias: concreto frio, aço oxidado e o cheiro inconfundível de sangue coagulado.

De repente, uma luz tênue piscou adiante.

Não era natural.

Era elétrica.

Ele seguiu o brilho, os passos lentos mas firmes. Conforme avançava, notava algo inquietante: as paredes estavam cobertas por escritos à mão. Rabiscos apressados, frases desconexas, símbolos desenhados com sangue, carvão ou talvez algo pior. Algumas mensagens se repetiam:

“Eles escutam através das paredes.”
“Não olhe diretamente para a tela.”
“Ela está no centro.”
“Ricardo, acorde antes que seja tarde.”

Seu nome.

Novamente.

A mente de Ricardo latejava. Quem o conhecia naquele lugar? Quem havia estado ali antes? Ou... quem ainda estava?

Virando o corredor, ele encontrou uma sala maior. Um laboratório improvisado, abandonado às pressas. Mesas reviradas, papéis espalhados, seringas vazias. Um monitor ainda emitia um chiado constante — uma imagem travada em preto e branco. Ele se aproximou.

Na tela: uma figura imóvel, encarando diretamente a câmera. Era humano, mas havia algo... errado. O rosto era parcialmente coberto por sombras, e os olhos pareciam seguir o movimento de Ricardo, apesar da imagem estática.

Então, o monitor mudou.

Quadros aleatórios piscavam rapidamente: experimentos, corpos sendo carregados, um símbolo misterioso gravado em portas de aço — um círculo com sete traços concêntricos. E então, uma voz metálica preencheu a sala:

“Início da Fase Dois... Sujeito R-07 confirmado ativo.”

Ricardo deu um passo para trás. R-07.
A designação estava gravada em sua mente. Ele. Era ele.

Uma sirene baixa e irregular soou ao longe. Um som mecânico, como se algo houvesse sido ativado.

As luzes começaram a piscar.

E os sussurros voltaram — não mais suaves, mas agressivos, urgentes.
Eles vinham de dentro das paredes.
Eles estavam nas paredes.

Ricardo correu até a porta mais próxima, mas ela não se abriu.

Atrás de si, algo se moveu.

Um braço esquelético surgiu de uma fenda na parede, seguido por garras que arranharam o ar, buscando sua carne. Ricardo girou, agarrou uma cadeira de metal e a usou como escudo, golpeando a criatura até ela recuar.

Mas mais estavam vindo.

Frestas nas paredes se abriram como bocas famintas. O concreto pulsava com vida própria.

Ele correu, atravessando os corredores como um animal acuado, o suor frio escorrendo por sua testa, a mente em ebulição.

Ao virar à esquerda, encontrou uma escada. Sem pensar, desceu.

Degraus de metal corroído, molhados, tremiam sob seus pés. O ar ficava mais denso. E mais frio.

Lá embaixo, uma porta de aço se revelava. Nela, o mesmo símbolo do monitor: o círculo e os sete traços.

Ricardo esticou a mão.

Um som sutil surgiu atrás dele.

Ele girou rapidamente. Nada.

Mas sabia que algo o observava.
E que ao cruzar aquela porta, não haveria volta.

Ele respirou fundo, as palavras ainda ecoando em sua mente:

“Início da Fase Dois.”

E então, empurrou a porta.


Ecos do Concreto O Mistério de Ricardo parte 1



Ecos do Concreto O Mistério de Ricardo parte 2




 

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